sábado, 11 de março de 2017

amei-te

Amei-te.
 
Amei-te porque me eras reflexo. Vi nos teus olhos um pouco de mim e quis-me mais do que nunca, como se todas as possibilidades do mundo estivessem cerradas na minha mão. E eu, que não gosto que me toquem nas mãos, quis a minha entrelaçada na tua. Todos os dias.

Em vez disso, entrelaçava-me no teu abraço.

Amei-te porque eras imperfeita. Como se isso me permitisse também amar todas as minhas ausências e todos os meus erros. Como se isso me desse a certeza de que, mais do que voltar a levantar-me, eu podia aprender a cair.

E eu caí, infinitas vezes. Por ti.

Amei-te porque, quando te conheci, tu não cabias nas minhas palavras. E eu parei de escrever. Durante um ano inteiro, não escrevi um único verso. Uma única frase. Uma única palavra.

Era tudo demasiado.

Ironicamente, foste tu que me fizeste escrever outra vez. Com palavras cruas, intensas, incessantes. E tudo o que escrevo ainda é para ti, mesmo sabendo que não me lês. Mesmo sabendo que são apenas palavras atiradas à parede, à espera do dia em que quebres esse silêncio.

Ainda?, perguntam-me. E eu calo-me. Ao fim de tantos anos, já não sei o que responder.

Continuei a amar-te porque não quis acreditar naquilo que eras. Sempre quis acreditar que tu eras aquilo que eu via quando, na verdade, eu estava a olhar para um espelho. Em ti, eu via as possibilidades do que eu poderia ser. E tudo aquilo que verdadeiramente sou.

Amar-te rompeu-me as máscaras. Perder-te tornou-me humilde.

Depois da raiva e dos porquês, desapareceste e eu percebi que já não me reconhecia em ti.
Depois do silêncio. Depois do nevoeiro. Depois das ruas desertas...

Encontrei um espelho partido.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

pormenores

Ele falava-me dos meus muros
Para me distrair das suas máscaras
Mal ele sabia que os meus lábios
Já tinham provado mais mentiras
Do que amor.

volta ao mundo

Sabes,
Um dia disseram-me
Que partir o coração
Era uma óptima maneira
De partir para o mundo.

Mas eu desconfio que,
Por mais voltas que eu lhe desse,
Iria dar sempre a ti.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

não me demoro

aborrecem-me as coisas amenas,
o meio gás, as chamas que se apagam
com o juntar dos dedos.
aborrecem-me os travões e as rédeas
quando tenho o coração
quase a saltar-me da boca
em silêncio.

aborrecem-me os abraços cheios
do vazio das ausências
e os beijos despidos de amor
à distância.

mas eu não me demoro,
porque não devemos demorar
onde não há espaço para amar
e eu já não quero condensar o universo
nos resquícios de um corpo
nem refrear a alma 
na razão.

eu não me demoro,
porque não pertenço aqui.
eu nasci para as explosões
debaixo da pele
e vivo para as galáxias 
que me restam nos lábios
e se restam nas pupilas.

já me cansam os nós na garganta
com os dedos entrelaçados.
não me prendas
se não for para ficar

eu sou só um momento
e já estou aborrecida
de ser só um momento
com a sede de ser
eternidade

mas eu não me demoro.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

não era nada

Um dia mais sem ti
Um dia a menos sem ti
Onde estás tu,
Tão longe dos meus olhos
Tão distante dos meus braços
E tão perto, tragicamente perto,
Dentro de mim
Onde estás tu,
Que não me soubeste querer
Como quem se quer
A quem se ama,
Mas que fingiste tão bem
Onde estás tu?

A vida ensinou-me a perder
O mundo pediu-me para deixar
Eu não me quis perder
Eu não me quis deixar
Mas abandonei-me e parti
Em busca de ti
E dos bocados de mim
Que ficaram nas tuas mãos
Largadas em qualquer lado
Numa outra pele
Em outros horizontes
De sonhos que nunca se acabam
De amores que nunca terminam
Onde estou eu?

Eu, que te quis
E te quero
Como quem quer
Aprender a voar

Perdi o encanto das palavras
Porque o peito as atropelou
Quando te viu e fingiu
Que já não era nada...
Não era nada,
E repetia
Pois, que mais faria
Com a verdade,
Se não chorar?
Não era nada...

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

eu ficaria

Eu ficaria. Se pudesse.
No teu colo, na tua pele,
Em cada suspiro teu.

O mundo traiu-nos, meu amor.
Porque tu não és mais tu
E eu não sou mais eu.
Como éramos antes de nos sermos?

As tuas mãos.
Não lhes esqueço o toque.
Porque eu arrepiava-me sempre.

Sempre.

Ainda te olho.
Ainda me despertas
Quando me cais
Desamparada na memória.

E eu quedo-me no cais
À espera de ti,
À espera de nada.

Mergulho nas folhas rasuradas
De poemas a lápis de cor
Porque os dias
São mais cinzentos
Sem ti.

Estás demasiado perto
Para quem está tão longe.
Olhei demasiado
Para quem nunca me viu.

Somos horizontes ao pôr-do-sol
De um dia que não quer acabar
É urgente acabar.
É urgente perder.

As cordas.
As pontes.
O universo.

É urgente deixar ir.
E é urgente ir também.

Mas, no silêncio da noite,
Nas horas sem voz
Nos segundos do tempo parado
Eu sei...

Eu ficaria.
Se pudesse.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

nó na garganta


- Estás tão calada. Que tens?
- Um nó na garganta.
- Estás com amigdalite?

- Não. 
São as coisas que não disse.
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